Tianny



Todas e todos da sua convivência sabiam que aquele era apenas o seu nome de guerra. O nome que ela escolhera para viver um intenso período de emoções, algumas até indesejáveis, mas que fariam parte do jogo.
Vaidosa na essência leve, solta, sonhadora no desejo, porém realista no enfrentamento dos percalços da vida, Tianny demonstrava saber os limites dos caminhos e das esquinas que resolver percorrer, bem como onde queria chegar. Lógico que não estaria nesse mundo se não fosse um poço de volúpia, um ser disposto a desvendar mistérios e entranhas. Um tino muito superior ao que poderia considerar os seus vinte e poucos anos.
Morena clara, cabelos louros escorridos, e encaracolados nas pontas sobre os ombros, ela era ainda percebida por onde passava, pelo gracejo do seu corpo esbelto e as pernas torneadas, um pedaço de mau caminho como a devoravam com a sintonia do olhar, admiradores daqueles olhos brilhantes saltitantes. Sabia pisar bem, como toda mulher genuinamente feminina deve andar.
Gostava de homens que não se perdessem nas preliminares tentando desatar os nós da alma feminina. Sem parcos segredos, o ideal seria aqueles que tivessem descoberto o prazer de conceituar que não é necessário entender as mulheres, basta amá-las em liberdade.
Passava para as amigas as quais fazia a linha da livre escolha, que naquele campo aprendeu que havia três tipos de clientes: o carente, aquele que normalmente foi abandonado por uma mulher e ainda tenta encontrar na sua percepção íntima, uma forma de reconhecer a autoestima, firmar a sua masculinidade, mesmo estando com as emoções em frangalhos. Este quer colo, conversa amena, carinho, sexo, enfim.
Já o cliente falso moralista é o conhecido bem casado. É um grande cidadão na sociedade, frequenta as missas ou cultos dominicais, um exímio respeitador das moças alheias, quando muito, olha de soslaio um rabo de saia, sem perder a austeridade. Este sim, quando um dia consegue uma folga, está disposto a beber e a derramar. Desfrutar de tudo que tem direito, quer gastar até o último centavo reservado para aquela noite onde quem manda é o prazer. Ele não se preocupa em pagar bem, desde que haja o retorno esperado.
Depois viria o boêmio, o homem que está sempre em paz com a vida, gosta das delícias de conhecer e trocar ideias com o maior número possíveis de mulheres, e consegue ser amigo, compartilhar inclusive de alguns problemas existenciais de garotas mal resolvidas.
Às vezes ela passava horas conversando com as amigas sobre as nuances desta vida, fazendo acreditar que, na maioria das vezes elas estariam ali para trabalhar, eles para se divertirem. É um dinheiro rápido, não fácil, até para fingir um orgasmo precisa ter excelência, assim como apressar um cliente que não atendesse a reciprocidade. Um dos segredos seria mexer na tela do ar-condicionado para cima e assim deixar o quarto quente para o freguês suar e perder forças. Ou simplesmente desligar o ar sob o pretexto de estar com frio. O calor acabava diminuindo o ritmo.
Ela resolver sair desse trilho, pouco depois em que sua mãe, Dona Corina, começou a desconfiar. Quando iria visitar a mãe em outra cidade, chegava carregada de presentes, até para os sobrinhos que moravam na casa da velha com a outra irmã e o marido, casal que compartilhava parte daquele segredo de Tianny.
Dona Corina queria saber onde a filha trabalhava para ganhar tão bem e andar tão arrumada, esbanjando perfume francês e frequentando os melhores salões. “Só pode ser coisa de babado”, pensava ela até resolver procurar uma cartomante. Já chegou entregando o jogo sobre as desconfianças com a filha, o que não demorou para que fosse gerado o resultado da revelação das cartas.
_ Sua filha trabalha vendendo as carnes.
Mas como a coisa não havia ficado tão clara, quando chegou em casa, ela comentou com a filha e o genro, sobre o trabalho de vender carne, ao que o genro retrucou na hora: deve ser em um frigorífico ou num açougue, Dona Corina...
Entre um lance e outro, Tianny decidiu sair desse trilho e voltar para terminar a faculdade e seguir adiante o seu destino.
Carregava na bagagem de emoções lembranças de alguns amores perdidos, cujas marcas ainda iriam lhe acompanhar por um bom tempo, assim como a melhor conclusão na frase que um dia ouviu de um amigo: “Todas as mulheres têm seus segredos, e são só delas”.
(Conto também publicado na Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar, edição número 14, de Setembro 2011). Charge: Laércio Eugênio

Tô voltando

Isso eu vi isso eu vivi isso me contaram...

O bebê voador

Nilo Santos: Boa matéria sobre o menino voador

Definir o que é e o que não é jornalismo é sempre uma questão de visão que nunca vai deixar de ser alvo de debate. O que interessa ou não depende do leitor, hoje, muito mais diversificado.
No início dos anos 90, quando Albimar Furtado assumiu a superintendência do Diário de Natal/O Poti, eu era correspondente do jornal em Mossoró e, ao mesmo tempo, editor de O Mossoroense. O saudoso jornalista Nilo Santos era correspondente da Tribuna do Norte. Travávamos uma concorrência sadia, cada qual fazendo a sua linha.

Numa manhã, quando ouvia rádio, passei pelo noticiário da Difusora e o assunto em pauta focava sobre uma mulher que havia dado à luz a um bebê, que saiu voando. Era ali pras bandas dos bairros Lagoa do Mato e Carnaubal. A maior onda.

Não contei conversa, tasquei o telefone para João Neto e comentei sobre a pauta com entusiasmo, embora eu mesmo tenha achado a coisa meio estranha. Mas estava pronto para apurar e produzir a matéria.

- João Neto – falei assim, meio com receio.

- Rapaz, aqui em Mossoró uma mulher deu à luz e o menino saiu voando...

Ele fez um silêncio como se não estivesse ouvindo bem.

- Como é, Gilberto?

- Uma mulher deu à luz, e o menino saiu voando – repeti compassado.

- Ôô Gilberto, que é isso homem? Não, não, não... Condenou enquanto eu ainda tentava acrescentar explicações sem sucesso.

- Mando não?

- Claro que não – encerrou.

Desliguei e fui elaborar outras pautas do cotidiano. Mesmo assim, decidi levantar a matéria para o jornal O Mossoroense. Conversei com a mulher, familiares e vizinhos, que confirmaram a gravidez, mas ninguém na verdade tinha visto o bebê voador. Fechei o material entrevistando dr. Barreto, ginecologista, que sem se aprofundar no assunto apontou a possibilidade de uma gravidez psicológica e por aí foi.

No dia seguinte, quando abri a Tribuna, estava lá na página regional com chamada em capa, um amplo material, redondinho, cheio de retrancas, fotos e um texto impecável de Nilo Santos com um leve sabor de sensacionalismo. Boa repercussão, por sinal.
Ainda pela manhã João Neto me liga.

- Gilberto, faça lá a tal matéria do menino que saiu voando. Dê outro enfoque e faça aí – disse ainda mesmo que recusando.

Isso eu vi, isso eu vivi, isso me contaram

O COMUNISTA TUPINIQUIM E O JORNAL CENSURADO

Crispiniano Neto, um dos incentivadores do jornal “subversivo”


POR GILBERTO DE SOUSA

Já no final da ditadura militar, pouco antes do processo de anistia política no governo Figueiredo, eu militava no movimento estudantil. Naquele tempo não havia essa ganância dos centros cívicos pelo controle das carteiras estudantis. As lutas eram efervescentes e aguerridas, muito mais observando a contribuição que os estudantes poderiam dar para efetivar as mudanças que a conjuntura acenava para o futuro do país.

A ditadura vinha perdendo sua legitimidade social e sofrendo desgaste político, embora sob ameaça de retrocesso devido à radicalização de setores das Forças Armadas que tentaram barrar o processo de redemocratização. Estávamos no ano de 1979.

A princípio, enveredei pela esquerda porque simplesmente achava bacana ser de esquerda. Depois foi que vieram as noções reais sobre o sonho que acalentava milhões de brasileiros na busca por melhores dias. Aquela briga que se travava contra o poder dominante era idealista e sentíamos que estávamos muito próximos de alcançar os primeiros passos para o objetivo de alternar o regime comando.

O presidente do Grêmio Estudantil do Centro de Educação Integrada Professor Eliseu Viana, a escola Ceipev, do Estado, era Almery Nogueira Júnior, que começara a coordenar o processo sucessório ao lado do seu vice, o Giovani “Paim”.

Almery lançou seu irmão Jorge Everton para presidente e Francisco Nogueira para vice. Um outro grupo que se formava pela oposição formatou uma chapa com Francisco dos Santos da Silva para presidente e me botaram na chapa como vice. No entanto, a chapa era desvinculada e por isso o vice tinha um lugar a mais no processo. Ainda surgiu uma terceira chapa, essa meio elitizada e até parecia que estava ali apenas para não ficar de fora do forjo eleitoral. Era encabeçada por uma mulher, Elysdeire Ferreira de Carvalho. Praticamente não fazia nem campanha.

O jogo começou com uma corrida civilizada onde os candidatos apresentavam suas propostas e faziam os contatos visitando alunos nos três turnos. Santos incluía uma luta a mais, que era o combate ao racismo. Ele não se sentia discriminado e procurava ampliar essa consciência.

Fomos vitoriosos com o estímulo de amigos como David de Medeiros Leite, entre outros. No universo de cerca de 1.200 votantes, Santos obteve em torno de 600 votos e eu 738 votos, exatamente. Botamos a tentativa oligárquica de Almery abaixo.

O mandato era de um ano e a gente tinha pressa para pôr em prática nossas propostas, entre as quais o lançamento de um jornal informativo.

A diretora Socorro Rego e a coordenadora do colégio Alessandra Delfino concordaram com o uso do mimeógrafo da escola para confeccionar o jornal. A intenção era de fazer um jornal convencional de colégio com informações internas. Fomos para a luta, mas precisávamos de orientação e procuramos Aécio Cândido e Crispiniano Neto, que eram estudantes de agronomia na Escola de Agricultura de Mossoró (ESAM), onde também residiam na já famosa casa 14. Eles também eram envolvidos em movimentos populares. Durante os contatos começamos a engolir corda, no bom sentido, de Crispiniano e Aécio e resolvemos publicar alguns artigos direcionados ao enfrentamento da ditadura militar.

Quando o primeiro número do jornal começou a circular, numa noite de quarta-feira, causou o maior rebu por conta dos artigos “subversivos”.

Ainda à noite a diretora nos chamou e pediu que o jornal fosse recolhido e destruído. E assim foi feito. Também só saiu esse número.

Isso eu vi, isso eu vivi, isso me contaram

ÁGUA QUENTE PARA MATAR A SEDE

Phabiano Santos e os velhos e bons tempos


Por Gilberto de Sousa

A adoção da gentileza nunca foi um sacrifício para ninguém, nem nunca custou nada. Mas há gente que não se toca e permite que a avareza se manifeste em certos momentos, talvez até em consequência dos percalços do cotidiano, o que as outras pessoas não têm nada a ver com isso.

Levei como um fato pitoresco, o caso da falta de generosidade dessa Dona Maria da história, a quem dei até um nome de santa, embora ela estivesse mais para o “coisa ruim”, o “sete pele” da música de Cássia Eller, do que para o santuário.

Lá pelo começo da década de 70, eu e o publicitário e marqueteiro Phabiano Santos(era Fabiano, o Ph de pharmácia veio depois), éramos vizinhos do mesmo pedaço do bairro Doze Anos, com 12, 13 anos. Estudamos não sei quantos anos na mesma sala de aula no Jerônimo Rosado, o tradicional Colégio Estadual, junto com Fausto Guilherme, Cecília Monte, Elza Brito, Afrânio Leite, João Batista Bispo, Pereira, Ribamar Freitas, Xavier Neto, Marcondes Serafim e outro punhado de gente boa.

A escola pública era legal, cumpria seu papel apesar de enfrentar os mesmos problemas que se repetem hoje. Era na época em que foi instalado o primeiro poço profundo em Mossoró, ali por trás do Teatro Dix-huit Rosado, antes um campinho de futebol “pavimentado” de raspa de serraria. A água jorrava pegando fogo para abastecer um montão de roladeiras, pipas em carroças e a presente lata d´água na cabeça. Era á tal água minerálica, termálica, como chegou a alardear o saudoso prefeito Dix-huit Rosado.

No meio de um ano, por conta das chuvas, o Colégio Estadual passou por ameaça de desabatamento em parte de suas estruturas físicas. E a providência foi a mudança das salas para o prédio onde já funcionava precariamente a faculdade de enfermagem. A educação física passou para um campinho por trás da cadeia velha, muito longe. Um longo trajeto para eu e Phabiano traçarmos a pé. Ainda bem que era à tarde, e no retorno, o mercado central, arrodeado de desordenadas barracas de madeiras, ainda conservava algumas abertas, principalmente as que vendiam lanches.

Numa dessas tardes, a gente foi para a física e o professor havia faltado. Ficamos jogando bola, fazendo a boa tabela. Phabiano no centro e eu na ponta direita, dupla que, por sinal, era muito elogiada. O sol das 13 horas era escaldante, como hoje e, já por volta das 3 da tarde, Phabiano lembrou que deveria passar na casa de jogo de seu pai, Teobaldo, de saudosa memória.

Saímos esbaforidos e tiramos quase a pique para o mercado, onde tomaríamos água antes de continuar a caminhada.

A mulher, dos seus 40 e poucos anos, meio gorda, de cara abusada, estava sentada por dentro da barraca com os cotovelos no balcão sem fazer nada.

- Dona Maria, me arranje um copo d´àgua.

Pedi meio tímido, com jeito de assustado e molhado de suor.

- Só tem água quente.

Cortou na hora, virando o rosto para outra direção.

Olhei para Phabiano e ele franziu o cenho, como caracterizam os bons romancistas, quando querem descrever alguém com cara de bobo surpreso, indeciso e meio desorientado.

_ Traga quente mesmo – implorei doido para saciar a sede certamente com a água que viria pelo menos morna.

A mulher me observou por cima dos ombros com um olhar fuzilador e entrou para o compartimento onde funcionava a cozinha.

Como ela estava demorando muito, Phabiano deu uma olhada de soslaio por cima de um compensado que separava o compartimento.

Não é que a bruxa estava esquentando a água numa panela de alumínio para levar pra gente.

Não me lembro nem se nós chegamos a beber.

Isso eu vi, isso eu vivi, isso me contaram

FALTA D’ÁGUA, UM CASO DE POLÍCIA

Parte da equipe de O Mossoroense em momento de confraternização.
Otoniel Maia de óculos e braços cruzados

Por Gilberto de Sousa

Já próximo do final da década de 80, quando eu editava o jornal O Mossoroense, me espelhava nos jornais dos grandes centros, procurando formas de conter despesas e liberar mais cedo a Redação nos finais de semana. Normalmente nos sábados, a gente fechava a edição de domingo, entrando pela noite e, às vezes pela madrugada, devido até a forma artesanal.

Ainda era tempo da máquina de datilografia e dos títulos à base da linotipo, uma antiga compositora mecânica, onde Cosme, o famoso Vovô, juntava as matrizes “letrinhas” em moldes para gerar o título indicado pelos editores.

Ninguém reclamava, pois apesar das dificuldades, o trabalho era realizado com muito amor, embora praticamente só contássemos com o domingo como folga. Foi, então, que, mesmo diante das dificuldades ousei fechar 90% das edições de domingo na sexta-feira, como se faz hoje, de modo mais tranquilo.

Imagine a agonia e o alvoroço para se vencer esse desafio. Mas dava certo, ou quase.

Minha Redação era dez. Nilo Santos editava Política, Sérgio Oliveira pilotava as matérias Gerais ao lado de Josi Marques, César Santos no comando do Esporte, e Otoniel Maia fechava a área policial. O eterno fotógrafo era Luciano Lélys. Na diagramação Paulo César, José Antônio e Ernegildo. Depois foi que chegaram os estagiários Paulo Procópio e William Robson para a Redação.

Sem o recurso da informática, a busca por matérias merecia um esforço muito grande dos repórteres. E nesse contexto, a área policial era uma das mais complicadas.

É tanto que num desses fechamentos, eu girava pela Redação e percebi que Otoniel Maia havia colocado o papel na máquina, mas não escrevia nada, enquanto o restante da Redação corria no ritmo frenético do tic-tac das máquinas. Ele começava a matéria e depois rasgava a folha, jogava no cesto e colocava outra. Repetiu o gesto várias vezes.

Assim como os outros repórteres, ele também estava tentando terminar mais cedo para ir para Tibau, já que era período de veraneio. Muito íntimo do deputado Vingt Rosado, Otoniel Maia não perdia um domingo a rodada de bate-papo com Vingt em Tibau.

Aproximei-me de Otoniel e perguntei. “E aí, nada de novidades?”.

Ele ficou meio enigmático, como se tivesse uma ideia naquele momento e começou a datilografar.

Quando eu olhei, ele estava começando o texto: “A falta d’água em Mossoró está um verdadeiro caso de polícia...

_ Ô Otoniel, tá certo que a página é de polícia, mas não tem nada a ver você puxar a falta d’água para o lado policial...

Quem estava por perto caiu na risada.

É certo que ele pegou pressão, repercutiu algumas matérias genuínas da área e acabou fechando a página.

E no sábado, logo pela manhã, se largou para Tibau já conduzindo as edições de sábado e a de domingo.

Certo que estava abafando, como se diz, entregou as duas edições a Vingt Rosado.

- Que é isso Otoniel, hoje é sábado e você já está com o jornal de domingo? Vingt surpreendeu-se e apelou.

Protestou depois junto a Laíre Rosado, que era o diretor do jornal e assim a gente teve que voltar ao modelo original, de ficarmos o sábado trabalhando para o jornal dominical.

Otoniel jogou água no projeto. Mas ele estava certo, a falta d’água naquela época já era um caso de polícia.


Isso eu vi, isso eu vivi, isso me contaram

O CARONA BOM DE SOM

Marcelo Mota e o seu novo teclado

Por Gilberto de Sousa

Todo mundo já está careca de saber que misturar álcool com direção nunca foi um bom negócio. Mas parece que tem gente que só acredita nisso quando, até por força de um inconsciente desejo da emoção mais forte, termina sendo levado para esse inconsequente teste de liberação de adrenalina. Uma verdadeira tragédia, por sinal.
Dentro da máxima de que o que dá pra rir da pra chorar, lembro uma história em que eu e o tecladista e cantor Marcelo Mota quase passamos desta para outra vida, depois de uma capotagem espetacular na estrada de Tibau.
Eu era diretor do Jornal de Mossoró, parceiro da administração municipal e a prefeita Rosalba Ciarlini e o seu marido, Carlos Augusto Rosado me convidaram para uma confraternização na residência de praia do casal. Era um domingo de pouco sol e com tempo nublado, já que estava se aproximando o período de inverno.
Logo pela manhã, ainda cedo, recebi um telefonema do industrial Hebert Vieira, amigo, irmão, conselheiro, pedindo uma confirmação sobre a minha presença, já que, durante o encontro, estava prevista uma conversa de ordem política, além do lazer. Confirmei.
Cheguei antes do meio dia e já encontrei um clima bastante descontraído, e para completar essa atmosfera, o grande Marcelo Mota, que era meu vizinho, mandando ver com o seu teclado e a sua alegria contagiante. “Salve, salve!”.
Fiquei em uma mesa com alguns amigos, entre os quais, Aldivon Nascimento, Herbert Vieira, Chico Leite, Nilson Brasil e Elviro Rebouças, que foi logo me apresentando uma cerveja estupidamente gelada e um Old Par. Preferi o uísque.
A brincadeira rolava em alta astral, entre conversas políticas e amenas, com um som ambiente refinado que ia ganhando corpo enquanto o tempo passava. No final da tarde veio à dança, tudo dentro dos conformes. Sendo um bom boêmio sempre gostei de ficar até o fim da festa, principalmente quando a música é convidativa.
A noite caiu e o momento era de despedidas. Muita gente começava a ir embora.
Quando eu me preparava para pegar o beco, Marcelo Mota me chama para cantar e pede para que eu o espere. Estava longe de prevê em que iria dar essa carona.
Enquanto ele desarrumava o som, Eduardo Medeiros e Ruth Ciarlini abriram mais garrafa de uísque, que seria a famosa saideira. Eles, eu, Carlos, Rosalba e Fátima Moreira ainda ficamos cantarolando ao som de Marcelo, sem amplificador no teclado, só com o microfone ligado.
Já passava das dez da noite quando resolvemos retornar a Mossoró.
Bianca, uma senhora que estava ajudando a cuidar do churrasco, também me pediu uma carona. Ainda entrou no carro, mas por insistência de Fátima Moreira, resolveu permanecer para dormir por lá.
A estrada estava escorregadia, pois certamente havia caído alguma neblina que passou despercebida no auge da festa. Não conseguimos passar a segunda curva. Inesperadamente perdi o controle e o carro começou a capotar. Foram quatro viradas, contadas por um motoqueiro que vinha logo atrás.
Enquanto o carro rolava mato adentro rompendo cercas e árvores até parar com os pneus no solo, Marcelo bradava: “Vou morrer, vou morrer, vou morrer”
E eu retrucava: “Vai não, vai não, vai não”.
Ele consegue sair do carro meio cego porque havia perdido os óculos, e corre pelo mato meio desengonçado tentando se livrar dos arbustos e gritando em direção a margem da rodovia: “Meu Deus, minha nossa senhora...”. Ajoelhava-se, agradecia, fazia a maior estripulia. Em seguida lembrava de mim e retornava ao carro, onde eu continuava imóvel, depois de perceber que havia fraturado a clavícula. Apertava meus joelhos e perguntava:
- Ta sentindo? Ta sentido?
- To Marcelo, vá pedir ajuda, homi.
E ele retornava a margem da rodovia, onde da segunda vez já estava o motoqueiro.
- Quem era? Perguntou o rapaz.
- Gilberto de Sousa, aquele jornalista.
- Há meu Deus, eu conhecia demais... Lamentava.
Já pensou? Eu calado e ouvindo aquele diálogo macabro a meu respeito? Mas, infelizmente fazia parte.
Finalmente chega uma ambulância e nos resgata. Marcelo estava apenas com algumas escoriações. Eu quebrado. O carro só o maracujá e o teclado de Marcelo já não produzia uma só nota.
Quando chegamos ao hospital da Unimed, quem estava pelas proximidades era o jornalista Carlos Skarllark, que foi logo dando um flash para uma emissora de rádio, fazendo espalhar a notícia ainda durante a noite.
A informação surgia com a versão de que Dona Bianca também estava no carro. Só que as pessoas sabiam onde eu e Marcelo estávamos, mas ninguém conseguia localizar Bianca. Pessoas próximas a Rosalba ainda formaram um grupo e foi à meia noite no local do acidente com lanternas a procura de Bianca no mato até terem a certeza de que ela dormia tranquila na casa da prefeita em Tibau. Ainda bem.
Fui engessado e fomos para casa.
No dia seguinte, Seu Messias, pai de Marcelo aparece lá em casa para me visitar.
- É, eu já dei um carão em Marcelo, e disse a ele que esse negócio de bebida não tem futuro.
E ao comentar esse tal carão com Marcelo, ele esquivou-se:
- Que culpa tive eu?- Teve sim, Marcelo, quem mandou puxar do fundo do baú aquele repertório refinado de Noel Rosa a Milton Carlos, você teve culpa sim.